Sábado, Novembro 28, 2009

Lições da Vida em Bananeiras IV


Lição Quatro: Após uma semana de trabalho exaustivo, tome regularmente sua cerveja em casa assistindo ao futebol no domingo, porém, lamentando ser sempre os mesmos times do Rio de Janeiro. Dê mais valor aos times de sua própria terra. Saiba a tabela completa do Treze e do Campinense, cante suas músicas e não os abandone em qualquer situação em que estejam. Se isso não for suficiente, resgate o Atalaia Futebol Clube, campeão paraibano da Segunda Divisão de 1992, para que não seja apenas recordações nas conversas dos mais velhos e nem risos nas conversas dos mais jovens. Mas, acima de tudo, nunca deixa a cerveja.

André Espínola

Domingo, Novembro 01, 2009

Licões da vida em Bananeiras III


Lição Três: Mantenha um diálogo constante com o sol e a lua em sua marcha diária. Tome cuidado com o Sol, pois não se conversa olhando-o nos olhos. Saiba então conhecê-lo pelo seu tom de voz. Normalmente o Sol no leste é muito mais traiçoeiro do que no Oeste, com uma má vontade comparável a de um trabalhador que levanta da cama por obrigação. Por conseguinte, nunca confie na Aurora, exceto quando coberta pelo orvalho, pois lhe dá a ilusão de ainda estar dormindo. Não há ressalvas quanto a Lua, pois se pode conversar com ela olhando-a nos olhos. Alheio a tudo isso, como se nada soubesse de suas idiossincrasias, saúde-os igualmente quando surgirem no leste e se despida quando mergulharem nas serras do oeste. Pergunte-os a hora sempre que quiser, pois eles não precisam de pilhas nem baterias para responder.

André Espínola

Sábado, Outubro 31, 2009

Nas barbas do Capibaribe


os olhos
angelicais das
nuvens

acusam-me;

a brisa,
a mais morosa
das brisas

dilacera-me;

os deuses
e sua corja
de assassinos

perseguem-me;

e diante
da maldição
do mundo

refugio-me;

nas barbas
do Capibaribe.


André Espínola

Terça-feira, Outubro 20, 2009

Série Lições da Vida em Bananeiras II


Lição Dois: Entenda, sobretudo, a língua do vento e as trilhas das nuvens, por entre as serras. Há muito a ser dito por coisas silenciadas. Notícias dos quatro cantos do mundo podem ser conhecidas ao fim da tarde, num banco de praça, com dezenas de crianças gritando ao redor. É só saber de onde o vento sopra e ouvi-lo atentamente. Ele traz consigo coisas importantes de tudo o que viu por onde passou, desde o pútrido odor da carniça devorada pelo urubu até o aroma desvirginado do brotar de uma flor. Quanto às nuvens, saiba por onde elas enveredam com o passar das horas. Saiba seus caprichos, suas vontades, seus prazeres e, acima de tudo, suas tristezas. Das profundezas de suas almas infelizes é que saem as chuvas. Saiba, por fim, antes de sair de casa, quando a chuva irá cair e então, quando ela vir, inspire o cheiro de terra molhada como o mais luxuoso perfume.

André Espínola

Segunda-feira, Outubro 12, 2009

Série Lições da Vida em Bananeiras

Bananeiras, Brejo da Paraíba

Lição Um: Aprenda o canto dos pássaros. São professores de boa vontade, sempre dispostos a ensinar. Essa deve ser a lição mais fácil de todas e, não obstante, também a mais longa. Talvez somente no leito de morte, nosso último suspiro seja uma compilação épica dos mais belos cantos que conseguimos reunir em toda nossa vida.

André Espínola

Sábado, Setembro 26, 2009

Reino Paralelo



enquanto recebo informações
logicamente reconhecidas,
prefiro viajar por mundos inexistentes
em coisas que não aconteceram,
e jamais foram esquecidas.

- sonho com Catargo
desmoronando as muralhas de Roma,
Jesus perecendo na cruz,
sem que sua morte pareça estranha,
enquanto Madalena ainda se vende
e goza na cama -

acima de tudo,
relembro os passos que nunca dei.

o vento sufocando o rosto
durante a queda,
e a ferida aberta,
chorando pus.

é então, enfim, que reino
em terras que nunca fui rei!

André Espínola

Segunda-feira, Setembro 21, 2009

Meu novo e velho mundo imaginário


Se eu tivesse em mãos os poderes de um deus, ao invés de construir, eu destruiria tudo. E não levo mais que um dia fazendo isso. Começo por destruir todas essas invencionices modernas e dizimo todas as grandes e vaidosas cidades metropolitanas, junto com suas estatísticas de renda, miséria e consumo. Derrubo arranha-céus e no lugar deles levanto florestas densas e bonitas; colinas verdes e virgens cheias de lírios e girassóis, ao invés de morros e favelas. Destruo o asfalto e deixo somente a trilha lamacenta ligando os vilarejos separados por milhas e milhas de terra inabitada e ar fresco. Nos vilarejos, ponho crianças brincando na grama verde e molhada e assim expio os olhos tristonhos e amedrontados dos meninos e meninas dos tempos de aquecimento global e, não obstante, sombrios. E mais: em cada vila deve haver pelo menos uma taberna, grande e confortável, para o divertimento de todos. Deixo também que criem um panteão de deuses, pois nenhum deus quer a responsabilidade de tudo só para si. Então, podem criar deuses do que quiserem: do céu, do ar, da água, do fogo, do que seja, portanto que os cultuem, lutem e dêem a vida por eles. E derramem sangue, bastante sangue, porque eu estou somente mudando a disposição das coisas, mas a matéria é a mesma, a essência é a mesma, os bonecos são os mesmos homens de sempre, e se tratando dessa matéria, sangue e morte nunca deixarão de existir. Só não quero guerras disputadas em grandes salas frias, com super computadores que aguardam somente um comando para dizimar todo um povo. Não, essas guerras eu reprimo com veemência. Quero mais é a guerra frente a frente, face a face, e a contagem imediata de quantos caem no campo de batalha. Assim é mais emocionante, mais bárbaro e muito mais fácil de criar heróis e mártires, o que muito me alegra. Em tudo o que há no mundo agora, somente uma coisa permaneceria intocável: você. Seu brilho sobrevive através de todas as Eras do mundo, as possíveis e, inclusive, imaginárias.

André Espínola