Quarta-feira, Janeiro 06, 2010

O Capibaribe e sua Guerra

Na noite de hoje, eu estava atravessando a ponte e, subitamente, decidi parar. Acabara de escurecer e era hora dos trabalhadores fatigados retornarem ao lar. Mas era uma noite incomum, dessas que não tem no Recife facilmente. Não havia sinal de engarrafamento numa das principais vias da cidade, nem buzinas e motores soprando suas melodias. Por isso decidir parar e observar como estava a noite para o Rio Capibaribe, se ele também compartilhava do breve regozijo de uma cidade em paz.

Suas águas carregavam um grande Mapa Mundi de nuvens, como que disposto em uma extensa mesa flutuante. Distinguiam-se os continentes cinzentos em sua imensidão, separados por oceanos negros. Enquanto eu fantasiava sobre qual seria a minha pátria querida, vi surgindo embaixo da ponte uma água podre, de tom mais claro, porém pestilento. Depois eu entendi que era como um estandarte, representando o silencioso contingente de lixo que avançava. Não tardou para invadir os continentes anuviados até dominá-los por completo. Um a um, estes foram caindo diante de sua força interminável, pois quando parecia que havia terminado um ataque, logo em seguida vinha um ainda mais forte e fulminante. Era uma guerra silenciosa, mas feroz. E o Capibaribe agonizava. Numa atitude desesperada, deu as ordens às suas águas e tentou recuar, mas a mesma correnteza que o recuou foi a que fez avançar ainda mais o exército em sua perseguição. O campo de batalha foi deixado desconfigurado. Os continentes sem a mínima força ou esperança de reagir.

O mais curioso é que neste exato momento olhei para o céu e o Mapa Mundi de nuvens estava intacto, numa tranqüilidade digna somente dos deuses. Assim o Capibaribe foi sentenciado a travar, sozinho, sua guerra contra os dejetos humanos.

André Espínola

Domingo, Dezembro 06, 2009

De quando a saudade volta pra casa

http://4.bp.blogspot.com/_sJ-Tl24XmGo/SeOT1u7MrTI/AAAAAAAAAGY/fStcMOJ4nPY/s400/a+mulher+com+vestido+amarelo+na+cama++via+sine-qua-non.jpg


Quando a saudade
chega de viagem,
fatigada
e maltrada
pelo tempo,

toca a campainha
com a alma
e só tem, de fato,
um desejo

que esteja na cama
preparado

um banquete
de abraços e beijos


André Espínola

Sábado, Novembro 28, 2009

Lições da Vida em Bananeiras IV


Lição Quatro: Após uma semana de trabalho exaustivo, tome regularmente sua cerveja em casa assistindo ao futebol no domingo, porém, lamentando ser sempre os mesmos times do Rio de Janeiro. Dê mais valor aos times de sua própria terra. Saiba a tabela completa do Treze e do Campinense, cante suas músicas e não os abandone em qualquer situação em que estejam. Se isso não for suficiente, resgate o Atalaia Futebol Clube, campeão paraibano da Segunda Divisão de 1992, para que não seja apenas recordações nas conversas dos mais velhos e nem risos nas conversas dos mais jovens. Mas, acima de tudo, nunca deixa a cerveja.

André Espínola

Domingo, Novembro 01, 2009

Licões da vida em Bananeiras III


Lição Três: Mantenha um diálogo constante com o sol e a lua em sua marcha diária. Tome cuidado com o Sol, pois não se conversa olhando-o nos olhos. Saiba então conhecê-lo pelo seu tom de voz. Normalmente o Sol no leste é muito mais traiçoeiro do que no Oeste, com uma má vontade comparável a de um trabalhador que levanta da cama por obrigação. Por conseguinte, nunca confie na Aurora, exceto quando coberta pelo orvalho, pois lhe dá a ilusão de ainda estar dormindo. Não há ressalvas quanto a Lua, pois se pode conversar com ela olhando-a nos olhos. Alheio a tudo isso, como se nada soubesse de suas idiossincrasias, saúde-os igualmente quando surgirem no leste e se despida quando mergulharem nas serras do oeste. Pergunte-os a hora sempre que quiser, pois eles não precisam de pilhas nem baterias para responder.

André Espínola

Sábado, Outubro 31, 2009

Nas barbas do Capibaribe


os olhos
angelicais das
nuvens

acusam-me;

a brisa,
a mais morosa
das brisas

dilacera-me;

os deuses
e sua corja
de assassinos

perseguem-me;

e diante
da maldição
do mundo

refugio-me;

nas barbas
do Capibaribe.


André Espínola

Terça-feira, Outubro 20, 2009

Série Lições da Vida em Bananeiras II


Lição Dois: Entenda, sobretudo, a língua do vento e as trilhas das nuvens, por entre as serras. Há muito a ser dito por coisas silenciadas. Notícias dos quatro cantos do mundo podem ser conhecidas ao fim da tarde, num banco de praça, com dezenas de crianças gritando ao redor. É só saber de onde o vento sopra e ouvi-lo atentamente. Ele traz consigo coisas importantes de tudo o que viu por onde passou, desde o pútrido odor da carniça devorada pelo urubu até o aroma desvirginado do brotar de uma flor. Quanto às nuvens, saiba por onde elas enveredam com o passar das horas. Saiba seus caprichos, suas vontades, seus prazeres e, acima de tudo, suas tristezas. Das profundezas de suas almas infelizes é que saem as chuvas. Saiba, por fim, antes de sair de casa, quando a chuva irá cair e então, quando ela vir, inspire o cheiro de terra molhada como o mais luxuoso perfume.

André Espínola

Segunda-feira, Outubro 12, 2009

Série Lições da Vida em Bananeiras

Bananeiras, Brejo da Paraíba

Lição Um: Aprenda o canto dos pássaros. São professores de boa vontade, sempre dispostos a ensinar. Essa deve ser a lição mais fácil de todas e, não obstante, também a mais longa. Talvez somente no leito de morte, nosso último suspiro seja uma compilação épica dos mais belos cantos que conseguimos reunir em toda nossa vida.

André Espínola