terça-feira, março 27, 2007

Morte Repetida

Hoje era o dia de minha morte.

Na verdade, tinha até hora marcada: cinco da tarde.

E não seria apenas eu. Toda minha família me acompanharia nessa seção como experimentos para pesquisas cientificas de curas de várias máculas humanas. Nos tempos contemporâneos, essa prática vem se tornado cada vez mais comum, muito embora os resultados não sejam muito satisfatórios.

Fosse como fosse, meu dia era hoje.

Enquanto eu estava sendo conduzido ao prédio de segurança máxima, senti-me triste. Dali a algumas horas eu iria morrer e não podia fazer mais nada! Estava me sentido frustrado, decepcionado, traído! Tirariam assim minha vida como se fosse um rato.

Não demonstrava essa minha indignação. Talvez abreviassem ainda mais meu tempo.

Durante a tarde fui dar uma volta pelo prédio. Tentava de qualquer forma afastar a idéia de morte. Mas não conseguia.

Encontrei-me com um ex-diretor de uma instituição na qual trabalhei.

- Diogo! Eu vou morrer! – e comecei a rir.

Ele começou a explicar que tinha um cargo alto naquele tal lugar, mas que era necessário algumas horas, talvez dias para a liberação de cobaias (falou nesse mesmo termo).

- Deixa para lá. Não tenho tempo. Vou morrer! – sorri novamente.

Mais tarde vi um ex-professor.

- Renildo! Eu vou morrer! – e gargalhei como nunca havia gargalhado antes. Por dentro eu sentia as lágrimas jorrarem, meu coração pular de medo, suplicando ao tempo para que parasse.

Ele não parava.

Chegou a hora. Mas antes eu tive que fazer uma ligação. Falei com um amigo meu para que cuidasse das minhas obras, das coisas que havia escrito. Era o único legado que eu tinha para deixar. Meus filhos, pois tudo o que eu tinha estava indo junto comigo, minha família. Ele prometeu-me que iria cuidar.

Sentei-me à cadeira às cinco em ponto. Todos estavam preparados, aparentemente. Olhava profundamente os olhos do doutor que iria puxar a alavanca. Quanta poesia havia naquele olhar! Mas não pude terminar mentalmente nem o primeiro verso.

Morri.

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Hoje era o dia de minha morte.

Na verdade, tinha até hora marcada: cinco da tarde.

Espera. Deja vu! De repente achei que já tinha vivido tudo aquilo. Que estranho.

Mas eu lembrei de tudo! Tinha, sim, vivido aquilo. Em outra vida? Estranho, mas parecia verdade, pois havia morrido.

Espantei-me. Saí correndo pelo prédio. Provavelmente estávamos alguns anos depois da minha vida passada, não sei precisar quantos, pois o prédio havia se modernizado demais. Havia tornado-se quase um shopping. E a prática de cobaias humanas também tinha se popularizado e sido aceita pela população.

Só um pensamento vinha-me à mente. O que será que meu amigo havia feito das minhas obras? Será que guardou na gaveta e, uma semana depois, teria, ele mesmo, sido convocado à morte honrosa? Não sabia como obter essa resposta.

Os seguranças corriam como loucos atrás de mim. Terminei desistindo. Parei e eles me acorrentaram no meio do corredor à uma pilastra.

Estava ofegante.

Olhei para frente e vi que era uma livraria.

E lá estava um livro com meu antigo nome.

Que felicidade! Eu estava lá de duas formas diferentes.

- Podem levar-me. Já vi o que queria. – falei a um dos guardas.

Quando, às cinco horas em ponto, sentava-me na cadeira para morrer, eu resolvi perguntá-lo:

- Você já leu alguma coisa do escritor Antônio da Silveira?

Esse era o meu antigo nome.

- Ah sim. Já li. Não gostei. Achei um saco, sem foco, chato e muito repetitivo. Já coloquei na lista de não ler nada mais dele. Morreu alguns anos atrás e resolveram publicar. Esses artistas. Enfim, está pronto?

Afirmei com a cabeça.

E ele puxou a alavanca.

Morri, pela segunda vez.


André Espínola

1 comentários:

Anônimo disse...

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